Poucas situações geram tanta insegurança quanto receber um paciente com dor torácica. A dúvida imediata entre um quadro benigno musculoesquelético/esofágico e uma síndrome coronariana aguda com risco iminente de infarto agudo do miocárdio consome preciosos minutos. Decorar critérios soltos não salva vidas nem garante tranquilidade nas rodadas clínicas do internato ou nas provas de residência.
A chave está em entender a mecânica da isquemia miocárdica: o descompasso crítico entre a oferta de oxigênio pelas artérias coronárias e a demanda metabólica do miocárdio.
O que é angina de peito?
A angina de peito (frequentemente descrita na literatura acadêmica pelo termo em latim angina pectoris) é a manifestação clínica de um episódio transitório de isquemia miocárdica. Ocorre quando o fluxo sanguíneo pelas artérias coronárias não supre a necessidade de oxigênio do músculo cardíaco.
A causa primária mais prevalente é a aterosclerose coronariana, caracterizada pela deposição de placas ateromatosas que reduzem o calibre vascular.

Fatores de risco e mecanismos desencadeantes
O desenvolvimento e a desestabilização da placa coronariana estão associados a:
- Fatores de risco cardiovasculares: Hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia (LDL elevado), diabetes mellitus, tabagismo, obesidade e sedentarismo.
- Gatilhos agudos: Esforço físico vigoroso e estresse emocional, momentos em que há elevação súbita do duplo produto (frequência cardíaca x pressão arterial sistólica), disparando o consumo miocárdico de oxigênio.
Os principais tipos de angina na prática clínica
| Parâmetro | Angina Estável | Angina Instável |
| Fisiopatologia | Estenose coronariana fixa por placa aterosclerótica calcificada/estável (obstrução ≥ 70%). | Fissura ou erosão da placa com formação de trombo suboclusivo e vasoespasmo associado. |
| Padrão de Início | Previsível: desencadeada por esforço físico ou estresse emocional habitual. | Imprevisível: ocorre em repouso, aos mínimos esforços ou em padrão acelerado (in crescendo). |
| Duração do Episódio | Autolimitada e de curta duração (habitualmente < 10 minutos). | Prolongada (frequentemente > 20 minutos) ou episódios repetidos de difícil alívio. |
| Resposta Terapêutica | Alívio rápido após cessar o esforço (repouso) ou com nitrato sublingual em ≤ 5 minutos. | Não cede satisfatoriamente ao repouso nem ao uso imediato de nitratos. |
| Enquadramento Clínico | Síndrome coronariana crônica estável há pelo menos 2 meses. | Emergência médica: espectro das Síndromes Coronarianas Agudas (SCA). |
Semiologia e sinais de alerta
Ao examinar o paciente à beira do leito, valorize a semiologia clássica:
- Sinal de Levine: O paciente apoia o punho cerrado ou a mão aberta sobre o esterno para demonstrar a sensação de aperto, constrição ou sufocamento.
- Irradiação Típica: Face ulnar do braço esquerdo, ombros, mandíbula, dentes e região interescapular.
- Cortejo Neurovegetativo: Sudorese fria profusa, náuseas, vômitos e palidez cutânea associada.
- Equivalentes Anginosos: Em idosos, mulheres e diabéticos neuropatas, a isquemia miocárdica pode manifestar-se sem dor típica, surgindo como dispneia súbita desproporcional, fadiga aguda intensa ou pré-síncope.
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